“É chocante pensar que uma mãe abandona o seu filho.”

Sempre me identifiquei com a área social, talvez por ser cristã, entendo que Deus ama a todos, não interessando o que a pessoa é (classe social, cor ou gênero). Após trabalhar por alguns anos na Fundação CASA, entendi mais ainda sobre este amor.Sempre me identifiquei com a área social, talvez por ser cristã, entendo que Deus ama a todos, não interessando o que a pessoa é (classe social, cor ou gênero). Após trabalhar por alguns anos na Fundação CASA, entendi mais ainda sobre este amor.Minha história com instituições de acolhimento começou em 2011, após a aprovação em um processo seletivo para a vaga de professora de reforço escolar para as crianças e adolescentes acolhidos em uma instituição.


No início foi muito difícil. Eram crianças bem agitadas, sem limites e sem foco algum para os estudos. Em 1 ano, passei a coordenar a instituição e logo depois, com a divisão da casa (uma para crianças de 0 à 12 anos e outro  para adolescentes de 12 à 18 anos) assumi a coordenação da instituição que acolhia apenas crianças. O acolhimento de bebês havia crescido muito e para manter o bem estar de todos, os mantenedores optaram por ampliar a instituição e fazer esta divisão.

É muito estranho e chocante pensar que uma mãe tem coragem de abandonar o seu filho, mas quando começamos a trabalhar com acolhimento, passamos a entender muitas coisas, principalmente que nem todas as crianças e adolescentes que lá se encontram são vítimas de abandono. Os bebês em sua grande maioria, principalmente os recém-nascidos, são deixados na maternidade logo após o seu nascimento.

Por algum motivo, a mãe recebe alta e o bebê continua internado. E é aí que ocorre o abandono, a mãe não retorna, o Conselho Tutelar é acionado e o bebê acaba sendo acolhido pela instituição. No tempo em que estive trabalhando no abrigo, 4 anos, recebi apenas uma bebê que foi vítima de um abandono fora da maternidade (uma bebê de 2 meses deixada em um supermercado).



Já as crianças maiores, a partir dos 2 anos, são acolhidas por diversos motivos: abandono, violência, violência sexual, vivência de rua, pais presos, mas a principal causa é a negligência por parte dos pais ou responsáveis legais. A segunda mais comum é a dependência de drogas ou álcool por parte dos responsáveis.

A vivência em uma instituição de acolhimento, por melhor que seja, será sempre um trauma na vida de qualquer criança ou adolescente. As pessoas que ali trabalham, nunca serão sua família, por mais carinho e cuidado que dediquem a cada um ali institucionalizado. O acolhimento deve ser algo provisório na vida de cada criança e adolescente que por lá passa.

Infelizmente, para muitos, o acolhimento ocorre até os 18 anos, idade máxima permitida para permanecer sob os cuidados da instituição.

Vale lembrar que nem todas as crianças e adolescentes acolhidos estão para adoção, muitas delas, inclusive os bebês, retornam para a sua família biológica. Antes de ocorrer a disponibilidade para a adoção, a equipe psicossocial do fórum realiza todo um trabalho para que a família biológica assuma a sua responsabilidade. Apenas quando todas as chances são esgotadas ou quando é totalmente inviável este retorno, aí sim ocorre a indicação para adoção.

As crianças e adolescentes que vivem nestas instituições sempre esperam por um lar, sempre! Principalmente a partir dos 4 anos, onde a angústia de não ir embora já apontam sinais, pois muitas crianças já têm consciência do que está acontecendo em sua vida. Algumas se tornam agressivas, outras deprimidas.

Sabemos que muitas são as influências que afetam a formação do caráter infantil e muito provavelmente nenhuma seja tão significativa como a influência da família, o que nos faz entender os inúmeros problemas emocionais e dificuldades de relacionamentos que muitas destas crianças e adolescentes apresentam, devido o rompimento com sua família biológica, seja ele motivado por um abandono ou não.

A esperança de retorno para uma família, seja ela biológica ou adotiva, é sempre grande e acredito que é o desejo de cada um que passa pela instituição.

Infelizmente, este retorno não depende da instituição e nem de campanhas incentivando a adoção. A adoção é um ato de amor e mais do que isto, é uma decisão séria, é preciso ter a consciência que ao adotar uma criança ou adolescente você estará entrando e marcando a vida de alguém para sempre, pois pior que o primeiro “abandono”, é o segundo por parte da família adotiva.

A adoção deve ser um desejo de todos os envolvidos, não apenas de parte da família. Se sua família tem este desejo real no coração e já conversaram sobre este assunto, mesmo sabendo de todos os problemas que poderá enfrentar, procure a Vara da Infância mais próxima a sua residência e informe-se como proceder.

Se você apenas quer ajudar essas crianças e adolescentes de alguma forma, visite uma instituição séria, eles sempre necessitam de voluntários e doações para que possam prosseguir realizando um trabalho de qualidade. Você pode ajudar de várias maneiras, veja o que a instituição necessita e o que você tem a oferecer.

Porque uma coisa é certa, aquelas crianças e adolescentes que lá se encontram, também são nossa responsabilidade.  

“Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade.” 

1 João 3:18



Kelly Menezes Formada em Pedagogia pela Universidade de Santo Amaro e pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade Nove de Julho.


0 visualização
  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram
Siga-nos nas redes sociais!

© 2023 by BINK. Publishers. Proudly created with Wix.com