Sentimos o chão sumir, o mundo ficou sem sentido.

Quando nos abrimos para falar sobre momentos que marcaram de modo cirúrgico nossas vidas, é evocar memórias às vezes muito doídas, outras vezes doces e, outras vezes, até pitorescas.

Uma história de superação.

Danilo sentado no chão.

É assim quando me proponho a falar sobre a separação física ocasionada pelo acidente do Danilo. Nossa vida como família tem uma data de referência: antes de 14 de agosto de 2000 e depois de.

Éramos uma família composta de pais e três filhos, sendo o Danilo o segundo. Todos criados em um ambiente cristão e com um compromisso sério com Deus, mas o Danilo tinha algo a mais nesse compromisso em termos de evangelismo.

Desde os 15 anos passou a dedicar suas férias para sair em missão. Era sua grande alegria. Além disso, era uma pessoa intensa em tudo o que fazia, tanto na faculdade de biologia da USP, como na sua dedicação e aprimoramento da música e no seu treinamento intenso para as corridas de São Silvestre.

No seu relacionamento com as pessoas preocupava-se em ser apoio emocional e espiritual nas dificuldades delas, testemunhos que tivemos após sua partida. Era um filho que quando errava em alguma atitude sabia pedir perdão.

E foi numa viagem de pesquisa da faculdade aliada a uma missão aos indígenas no sertão da Bahia que o acidente aconteceu, no qual ele faleceu poucas horas depois aos 22 anos. Quando se recebe uma notícia dessas, nossa primeira reação é sentir o chão sumir, e o mundo deixar de fazer sentido.

E agora, como tocar a vida?

Como acordar de manhã e cuidar das plantas que há pouco ele havia comprado para um projeto que estava idealizando? Como fazê-las continuar tendo vida quando ele não estava mais presente?

Como olhar para a família destroçada pela dor e ainda tentar ser forte? Como continuar a ser uma mãe normal para os outros filhos?


Como? Revendo agora estes 16 anos passados só posso dizer que, em primeiro lugar, Deus se fez presente derramando um suporte sobrenatural.

Nos momentos de dor intensa eu largava tudo, corria para o meu quarto e dizia: “Deus está doendo demais, eu não estou aguentando”. Nessa hora eu era invadida por uma onda de paz que me fazia levantar e retomar as atividades.

Deus na sua multiforme sabedoria e cuidado me levou a conhecer a voz de uma moça chamada Alessandra Samadello. Ele usou o seu louvor para aquecer a minha alma. Por meses eu a ouvi intensamente, e uma paz me envolvia.

Várias pessoas também com suas orações foram essenciais. Por exemplo: um dia em que eu estava no supermercado, passando em frente de coisas específicas que ele gostava, precisei sair correndo deixando lá todas as compras.

Chegando em casa, o telefone tocou e uma pessoa amiga disse que Deus tinha falado para ela me ligar e orar comigo. Sem dúvida a fé do meu marido e seu amor por mim, foi essencial para que me fortalecesse quando me sentia fragilizada, ainda que ele também se sentisse como eu.


Mas, há algo que quero contar como uma experiência especial.

Após o sepultamento, enquanto recebia os abraços finais, seguindo uma fila, uma pessoa vindo de outra direção interceptou a fila e me abraçou. Não vi seu rosto, só visualizei suas costas: um cabelo meio avermelhado, comprido e preso num rabo de cavalo. E suas palavras foram: “vocês serão sustentados”. Como ela veio, ela se foi. Não sei quem era, mas de todas as palavras que ouvi naquela fila imensa, foi a única que ficou gravada e se tornou viva e real. Fomos e continuamos sendo sustentados.

Nove dias após o seu falecimento, eu acordei com uma sensação diferente e ainda deitada escrevi uma poesia. Meu marido saiu para trabalhar e deixou tocando a música “Deus cuidará de ti”. Algum tempo depois, precisei sair para pegar resultado de exame do meu pai no hospital e então, enquanto dirigia, fui invadida por uma onda tão intensa do amor de Deus que chegou a se tornar algo físico, sentia um ardor de amor queimando por dentro.

E ali onde estava passei a cantar com todo meu ser: “Meu coração transborda de amor, porque meu Deus é um Deus de amor…” Sem dúvida, creio que essa experiência revelou que o mesmo Deus que levou para si o Danilo, deixava em mim a marca do seu amor, absolutamente real. A verdade é que continuei tendo momentos de profunda tristeza, mas a cada vez que isso acontecia minha mente e meu coração eram levados para relembrar aquele momento único.

Esse processo de superação sem dúvida, também envolveu a gravidez da minha filha. Durante esse primeiro ano de separação do Danilo ela engravidou e, faltando exatamente 5 dias para marcar a data de um ano de seu falecimento, nasceu a Lara, não para substituí-lo, mas para nos acariciar com a esperança de uma nova vida que solicitava de maneira intensa a nossa presença.

Hoje, posso recordar tudo isso sem sangrar o coração, mas tenho uma saudade específica, são os netos que não tive. Fico imaginando como seriam os rostinhos dos filhos do Danilo, mas penso também que devo ter alguns netos espirituais espalhados por aí, pois o Danilo com seu evangelismo gerou filhos para Deus e que, com a graça de Jesus, devem ter gerado outros filhos para o reino do Pai.

Olhando para a nossa família, vejo como um lindo quadro formado por peças de quebra cabeça, montado por Deus ao longo dos anos, e no seu tempo aprouve a Ele retirar uma peça, mas no lugar dela deixou emanando um lindo raio de luz que continua a irradiar lembranças que nos remetem ao cuidado e a soberania de Deus.

Finalmente quero dizer que experimentei duas situações muito distintas nesta perda, embora uma delas não tenha durado, creio eu, mais do que 15 minutos. A primeira envolve todo esse processo que relatei desde a notícia do falecimento até os dias atuais e acredito, até nosso reencontro, um dia, ao lado do Senhor Jesus.

Mas a segunda situação ocorreu na madrugada que antecedia seu sepultamento. Passei por um breve cochilo e quando acordei fui acometida por um sentimento de desespero total. Naquele momento eu não sabia que Deus tinha afastado Seu Espírito de consolo. Posso dizer que conheci, nesse breve tempo, a dor arrebatadora que me levava a entrar em desespero sem igual. Pensei que só a minha morte aplacaria aquela dor. Repentinamente fui revestida com a presença dEle. A dor estava lá, a tristeza também, a solidão da falta do Danilo também, mas não mais o desespero.


Entendo que o Pai me deixou saber nesses breves momentos o que é passar por uma situação dessa com a Sua presença e sem ela. Hoje posso entender perfeitamente a dor de quem perde um filho sem o consolo e a presença sustentadora de Deus através do Seu Espírito. Entendo por que pais enlouquecem, se separam, adoecem.


Se, de alguma forma, a minha experiência possa levar pais que sofrem ou que mesmo não tendo passado pela experiência da perda, vivem sem conhecer o amor de Deus, então oro para que esse meu relato possa desafiá-los a encontrar o amor de Deus que um dia me alcançou na pessoa maravilhosa do Senhor Jesus.

Cleony Maffei (agosto 2016)

Deixo registrado algumas anotações que encontramos na agenda do Danilo.

📷

PALAVRAS DO DANILO, GUARDADAS EM SUA AGENDA

13/3/99 Viver é a arte de recomeçar sempre. Para não idolatrar nada devo orar sempre que for fazer alguma coisa. Dízimo é parte da lei – Quem quer cumprir o dízimo tem que cumprir toda a lei. Hoje e um referencial mínimo. Deus quer que lhe confiemos todas as áreas da vida , inclusive as finanças. 15/3/99 Deus é um Deus de ordem. 16/3/99 Citando Elton Trueblood: Temos que empregar bem o tempo que dispomos, já que na melhor das hipóteses nunca temos o suficiente. 17/3/99 Temos que amar a Deus de todo o coração, alma, força e entendimento. Temos que ter sempre entendimento daquilo que Deus quer para nós. Se quisermos ser úteis à Deus na sociedade moderna, temos que ter grande conhecimento de todas as coisas. Amar a Deus é fazer sempre o melhor possível. Porque não fazemos sempre o nosso melhor? 21/3/99 Tudo aquilo que não deixa a semente frutificar tem que ser tirado da nossa vida para que tenhamos um jardim. Amor não é um sentimento, é um caminho (estilo de vida) – Observação sobre a pregação de I corintios. 02/4/99 Nós não precisamos de muitas estratégias ou sabedoria. Nós temos é que mostrar amor pelas pessoas. As pessoas vão conhecer Jesus vendo o nosso amor. 05/4/99 Imitar a Deus é andar em amor “Sede, pois, imitadores de Deus como filhos amados”. Efésios 5:1 12/4/99 O homem exterior não quebrantado é como um sapato apertado que nos atrapalha para andar. Nosso homem exterior precisa ser quebrantado para que nosso homem interior seja liberado. Deus usa muitas situações para quebrar nosso homem exterior. Nós precisamos estar atentos a elas e não murmurar. 13/4/99 A revelação de Deus divide alma e espírito. Separa o espírito das intenções do coração. Muitas coisas que pensamos vir do Espírito são da alma. Que Deus nos traga revelação e nos ensine a viver no espírito. 03/5/99 Minha oração é que a palavra de Deus seja verdade na minha vida. 06/05/99 Em tudo que eu fizer eu quero estar meditando, visualizando e sentindo para fazer as coisas direito. Eu quero estar meditando junto com o Senhor. E quero estar orando o tempo todo. 14/05/99 O conhecimento de Deus é o mais básico dos conhecimentos e nos traz libertação em todas as áreas. 27/05/99 Deus quer que nós conheçamos seu caráter e não suas obras. 30/05/99 Se queremos salvar as pessoas temos que nos envolver com elas. (Após citar João 1:14 – “E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”). 16/06/99 Que a minha prioridade seja Deus. (após achar que não estava separando tempo para ler a bíblia e orar). 17/06/99 Preciso estabelecer a ordem como um princípio básico na minha vida. Preciso conhecer a vontade de Deus para mim. 21/06/99 Eu tenho que buscar de Deus o referencial de bem e mal e voltar a ser dependente dele. Que Deus nos dê este crer – Esta é uma obra que só o Espírito Santo pode fazer. (Quem crê verdadeiramente em Deus faz as obras de Deus). 10/7/99 Ministrei louvor perante o Senhor e me senti na unção. 23/7/99 “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” João 7:38 Senhor, me dê esta fé que faz brotar rios de água viva. 02/8/99 Senhor, eu quero te servir em tempo integral. Eu quero que cada atitude minha seja um ato de louvor a ti, desde preparar um meio de cultura, fazer uma diluição ou uma contagem, assistir uma aula, conversar com um amigo, eu quero que tudo manifeste a tua vida em mim e a tua glória. Eu quero ser como Paulo que sabia que ia ver os irmãos e ia edificá-los. Não tenho pregado o evangelho no laboratório, tenho tido vergonha! Ao invéz, tenho ficado esperando me tornar um super exemplo, para daí em diante pregar. Ta errado. Quando eu começar a pregar vou sentir mais forte a necessidade de ser um exemplo e, com a ajuda de Deus, vou conseguir ser. Eu comecei a pensar nisso tudo vendo a necessidade de progredir na carreira científica. Percebi, então que não posso fazer isso sem Deus. Mesmo que todos me gozem hoje, amanhã Deus me levantará. Por isso não posso desanimar, tenho que cumprir suas ordens. 31/12/99 Quero ir vivendo minha vida em comunhão com Deus, de maneira tão intensa, que desperte a atenção dos crentes e incrédulos. Que Deus me faça um padrão de estudante, estagiário, amigo, cristão. Amém. 04/01/2000 Estava numa altura de 16 metros colhendo pinhas na árvore, sob o vento e chuva. Comecei a ter medo, mas pensei: se eu for me preocupar com a altura e o perigo não farei o meu trabalho. Esqueci então de tudo e me concentrei no meu dever. Deu tudo certo. Senhor eu quero escrever uma história bonita este ano. Me ajude a viver cada dia conquistando. Muitas vezes eu me perdia nos meus pensamentos e as coisas davam errado. Quando eu voltava a fazer as coisas para Deus, tudo dava certo novamente. 14/01/2000 Jesus o Senhor é parte da minha vida. Não deixe que eu me perca longe de ti. Me faça andar junto de ti cada vez mais a cada dia. É preciso se acalmar e perdoar uma pessoa antes de se falar com ela. Acima de tudo temos que ter em mente que cada palavra que sair da nossa boca deve ser primeiramente boa para edificação. Senhor eu quero viver tendo a minha identidade em ti, sem ter que provar nada a ninguém.

Essa poesia a seguir escrevi um ano antes, com uma inspiração repentina. No momento estava pensando que se referia ao filho que cresceu. Eu não entendia porque não conseguia escrever filhos. Parecia haver uma ordem interior para registrar filho. Um ano depois eu entendi.

VIDA Vida corrida, Sofrida, Vivida. Passas tão rápido. E aquele olhar do filho feliz? Se foi. E aquele choro doído de dor? Se foi. E aquele aceno de adeus na porta da escola? Se foi. Ficou… A lembrança nem sempre vívida, Mas viva sim, Do que consegui tirar do tempo que passou, E colocá-la guardada Bem segura, Onde tu, ó vida corrida, Ainda que queiras, Não chegarás: Meu coração

Cleony 8/99

Essa outra poesia eu escrevi antes de levantar nesse nono dia da sua partida. As palavras fluíram sem que eu parasse para elaborá-las. Não sabia que ia ser inundada de maneira tão palpável pelo amor de Deus poucas horas depois.

ONDE ESTÁ O TEU CORAÇÃO, AÍ ESTÁ O TEU TESOURO Num dia comum para tantos Num dia único para alguns Numa nuvem escura num dia de sol O bálsamo do amor me alcançou. E um louvor como nunca Outrora havia sido feito, Saiu dos lábios de quem só antes conhecia Estabilidade, bonança, alegria. Que louvor pode ser feito Quando a tragédia nos alcança? Quando o filho se vai sem dizer adeus? Quando não se pode ao menos tocar o seu corpo? O louvor é entender Que nosso tesouro é Jesus E não o nosso filho Que é sim, uma linda joia do tesouro. Joia preciosa sim, Que adornava com grande resplendor O corpo de Cristo na terra. Mas que agora adorna A coroa de Jesus nos céus. E é por isso que hoje há louvor Ao Deus que é bom e não faz o mal Ao único que nos sustenta Com alegria no meio da tristeza. Que faz da saudade Não um sentimento de derrota Mas um impulso à adoração Ao Rei Jesus, nosso tesouro.

Cleony 23/08/2000

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